A rotina e seus pequenos desconfortos

 Hoje foi um dia particularmente peculiar, adormeci tarde e acordei cansada, olhei no relógio e por trás da minha foto e do horário dizendo que era cedo demais para estar de pé, observei o aplicativo do tempo dizendo que fazia 6 graus. Com o pouco de ânimo que me sobrou ao sair da cama, que estava tão quente e chamativa, me obriguei a levantar e seguir o ritual de banheiro, roupa, pão e comboio. Se as coisas vão bem, o mesmo ritual se repete dia pós dia, porque hoje seria diferente? 

Pisei os pés para fora de casa, senti as extremidades do corpo se encolhendo, o vapor saindo das narinas denunciavam que eu tinha colocado uma meia fina demais e que o meu tenis não seria capaz de me esquentar os pés.

Olhei para o lado e pisei na rua para atravessa-la e seguir com o habitual ânimo com as mãos nos bolsos até a estação, a batida dos trilhos de ferro, quase faziam acordar as pedras que repousavam pelo caminho, e mais uma vez estava meus pés, um na frente do outro, a subir e descer escadas que me levariam para mais um dia produtivo de trabalho. E mais uma vez, a sensação comum me abateu, de me espremer em filas, com as leves trombadas de braços e mochilas e então o caminho se abrir novamente no corredor que sabiamente só sabe organizar a fila em uma pessoa de cada vez, com sorte isso realmente acontece. 

Me sento no banco pequeno demais, mochila no colo, sol nascendo pela janela, e mais uma vez tem uma pessoa falando ao telefone como se sentisse prazer em incomodar quem só quer silêncio pela manhã, coloco meus fones de ouvido, as vezes uma oração as vezes uma meditação e o tilintar das rodas de ferro começam outra vez, assim como o pinga pinga de paragens e de portas que abrem e fecham a cada poucos minutos e então aquele corredor tão sábio, parece esquecer-se da própria regra e algumas pessoas azaradas disputam o mesmo espaço mesmo que a física diga que isso não é possível. 

Chego na estação de destino, mais filas, mais escadas, mais leis da física sendo testadas, e mais pessoas, que assim como eu seguem suas vidas, algumas viram a esquerda e se livram do tumulto, outras como eu encaram uma caminhada tumultuada por túneis que nos levam ao metro, que mais parece uma caixinha de algodão espremido, em que ao abrir a tampa faz saltar os algodões que estão dentro. 

Decido não pegar o que já está lá, já são quase nove horas, está cedo demais para me espremer novamente, então pego o próximo, consigo ter um quadrado pequeno de espaço só pra mim, ufa, continuo escutando a seleção sonora do dia, as vezes uma música alegre e as vezes um podcast para aquecer a engrenagem cerebral, mas geralmente algo alto suficiente para não ter que ouvir os meus próprios pensamentos, está cedo pra isso também. 

Depois de mais escadas, mais filas e catracas, finalmente, liberdade. O dia pode começar. 

O dia a dia acontece, aquilo que hora fazemos por amor e hora fazemos por dinheiro termina, e a saga retorna. As filas, as catracas, a música, as pessoas agora com cara de cansadas, as vezes dormindo, e as vezes falando ao telefone, cada uma delas assim como eu tampando os próprios pensamentos com o ruído que escolheu colocar nos fones de ouvido. 

Todo dia parece sempre igual, e quase reconheço as faces com quem cruzo o caminho, todos nós, unidos pela necessidade e talvez pela falta de opção de ter que lidar com tudo isso, as vezes reclamando, as vezes se conformando. 

Mas especialmente hoje, enquanto fazia a troca de estações, sem fone de ouvi ou sequer ouvindo meus pensamentos, observei uma garota de cabelos cacheados, parada, indignada, olhando em volta e olhando para o chão, como se pedisse ajuda com os olhos e risse de desespero com os lábios, então acompanhei seu olhar até o chão e vi uma fatia de bolo, intacta e estatelada no chão, nas mãos da garota o saco vazio, não ouvi o que ela estava dizendo para si mesma quando a ultrapassei, mas empatizei com ela, não pelo bolo caído no chão, mas sim pela sensação de ter algo que você queria muito, cair de suas mãos e ninguém dar a mínima, porque a vida , o trânsito, o deslocamento continua, a todo momento, embora a custa de muita indignação, de muito desconforto e insatisfação, e talvez até por isso ninguém liga, e talvez, sabendo disso você escolhe se seguir assim é liberdade ou frustração. Afinal de contas, ninguém liga, quem vai se importar com você e com o que você está fazendo a cada instante?

Dia pós dia, no automático todos seguem para o caminho de volta, pelos mesmos trilhos, o senhor dormindo e roncando no banco de trás, a pessoa da frente tossindo enquanto você torce para não ser nada contagioso, e amanhã, talvez se tudo correr bem será igual, exceto pela menina e seu bolo no chão. 

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